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  • Foto do escritorEmily Bandeira

Manifesto para a Ultra-tradução.

Atualizado: 23 de jun. de 2023

O Manifesto para a Ultra-tradução é um panfleto publicado pelo projeto Antena.

Você pode encontrar a versão original aqui:


https://antenaantena.org/wp-content/uploads/2012/06/ultratranslation_eng.pdf


Eu tava com saudades com esse tanto de bagunça poética para repensar a ética de meu trabalho. O manifesto chegou para dar essa acalentada no coração/tapa na cara, fazer o sangue circular. Fui feliz lendo-o, fui feliz traduzindo-o.


É claro que eu tinha que fazer minha Ultra-tradução do Manifesto para o português:

Um Manifesto para a Ultra-tradução



Por que eu traduzo? Porque a massa congelada de feiúra, ganância e fascismo básico e Cristão anglo-americano continuará a explodir pessoas & livrarias & lares & museus de cem Bagdás, a não ser que consigamos fazer com que cidadãs/ãos Norte-Americanos suficientes percebam a beleza do outro, da poesia do outro, do discurso de todos os outros.

–Pierre Joris


Eu me tornei intrigado com coisas fora do lugar – coisas que estão erradas. E a tradução é um estado perpétuo de estar errado…

– Don Mee Choi

Eu queria traduzir o que ainda não estava ali…O paradoxo de fronteiras, nacionais, corporais e linguísticas é que seu valor primário não é o de deixar de fora, mas sim o de deixar entrar. Traduções envolvem permeabilidade, não equivalência.

–Oana Avasilichioaei and Erín Moure

"Quando nos referimos à tradução", pergunta Andrés Ajens "pode ela existir apenas em parte? Em parte tradução e em parte outra coisa? Em parte traduzindo e em parte não traduzindo – outro texto, até mesmo outra assinatura? Poderia ser? Eu…traduzo Ajens…com um convite para escrever, como estou escrevendo. Como traduzir através de não traduzir? Como traduzir o convite sobre não traduzir? Seu como? Como traduzir não traduzindo? Como recusar a desaprovação da tradução na tradução?

– Andrés Ajens, trans. Erín Moure and Jen Hofer; Erín Moure writing through Andrés Ajens


  • Nada está perdido na tradução. Tudo já estava perdido, muito antes de chegarmos.

  • A tradução é seu próprio desfazer. Um circuito de retroalimentação. Uma fita ou tripa de Moebius. Um desescrever do original, que nunca é o mesmo de qualquer maneira. Uma escrita da tradução não-original.

  • A tradução é uma assíntota: não importa o quanto tentemos nos aproximar, sempre existirá um espaço entre dois corpos e esse é o espaço em que vivemos. Esse é o espaço onde transpomos ou somos transpostas/os.

  • Intraduzibilidade é a raiz de nossa prática. Momentos de intraduzibilidade levam diretamente a intradução, subtradução, supertradução, um excesso, extratradução, uma falta, um limite, uma excrescência, uma impropriedade, distradução, retratradução, multitradução, um erro, um conflito, destradução. A compreensão do potencial em não entender. Uma Ultra-tradução.

  • Ultra-tradução – uma consciência sobre o ressoar ou sobre a respiração. Nem toda tradução é Ultra-tradução. Ultra-tradução são momentos dentro da tradução, uma parte da tradução, partindo-a para expôr suas brechas irredutíveis. A Ultra-tradução emerge da tradução, move a tradução para outro lugar. A transpõe.

  • Ultra: espacialmente além, do outro lado, indicando outro lugar. Ultra: ir além, trespassar, transcender os limites. Ultra: um grau extremo ou excessivo.


  • A Ultra-tradução é bagunçada. A Ultra-tradução é excessiva. A Ultra-tradução é indisciplinada. A Ultra-tradução é absurdamente investida nas glórias do Traducionês. A Ultra-tradução tem o intraduzível como ponto de partida, não como ponto de chegada.

  • A Ultra-tradução trabalha para traduzir o intraduzível e também para preservá-lo: não reduzir o irredutível. Não saber, mas reconhecer. A Ultra-tradução não substitui a tradução, tampouco deseja testemunhá-la. Elas existem uma ao lado da outra, concomitantemente, uma alimentando a outra. Dois corpos com o espaço negativo da relação entre eles. Apenas na geografia das margens, do espaço entre, apenas ali. A Ultra-tradução não é uma tradução desatrelada de significado, mas uma tradução que questiona o quê e o como dos significados significarem.

  • Nos opomos a tradução sem emendas, aquela que procura costurar inúmeras palavras e ideias em disparate e as divide como se sempre estivessem estado fundidas. Nos opomos à pose: posições de controle ou superioridade. Queremos que a Ultra-tradução: destraduza as costuras, extratraduza as brechas, multitraduza os saltos, infratraduza as porosidades. Queremos ambos o que transfere e o intransferível.

  • A Ultra-tradução nos guia a um futuro inevitável. Acreditamos que a falha é produtiva: um obstáculo que torna a costura visível. Criticável. Na falha temos momentos de espanto e boquiabertura.

  • Damos as boas-vindas para erros e fissuras porque elas são palpáveis, possuem textura: aqueles obstáculos são uma parte integral da experiência de ler um conteúdo, sua forma, as inúmeras formas de apresentação apresentada pelos textos – sempre plural, como a tradução é um ato de duplicação ou multiplicação ou redução ou tudo isso de uma vez.

  • Falharemos ao nível da palavra e falharemos ao nível da cultura. "Sucesso" é inapropriado dada a complexidade da existência humana e interrelações. A única maneira de começar a entender é não entendendo. Acreditar que ler um texto ( ou até vinte textos) de uma cultura em particular nos fornece uma "compreensão" desta cultura é reduzir sua complexidade e inerente irredutibilidade a algo que possamos digerir. Acreditamos em retroalimento mais que em alimento. O Alimento é digerido e excretado; o retroalimento continua num eterno ciclo cíclico.

  • Não podemos assumir que essa palavra pode ser usada para aquele corpo; não podemos tomar como certo que compartilhamos do mesmo entendimento mesmo (ou talvez especialmente) das palavras mais familiares. O familiar demanda tradução. O ultrafamiliar demanda Ultra-tradução.

  • Trabalhar através de linguagens requer contextualização. A Ultra-tradução tenta contextualizar de dentro da linguagem, dentro da sintaxe, entre e ao redor das palavras, da respiração, da pronunciação. Ar e diafragma contraindo e relaxando.

  • A Ultra-tradução fisga tradutoras/es fora da invisibilidade e para as ruas, para as margens, para os rodapés, para as anotações, para o ativismo, para a falha e para a irracionalidade, para a intuição, para a canalização. O trabalho pode falar por si mesmo, mas a tradução nunca o faz. Tampouco pode ser "falada por" pela/o tradutor/a (ou por mais ninguém). Ao invés disso, tradutoras/es falam por nós mesmas/os, endereçando questões de postura, posição e perspectiva, realocando a invisibilidade com transparência ao escrever notas em pró de um entendimento das ferramentas e processos que fizeram a tradução. Em pró de uma compreensão da prática da Ultra-tradução.

  • Quem escolhemos traduzir é político. Como escolhemos traduzir é político.

  • As políticas da tradução nos tornam ultra-céticas/os e ultra-comprometidas/os.

  • A Ultra-tradução é construída do radicalismo, ultraísmo, anti-racismo, anti-superioridade, anti-assimilação. Reconhecemos e respeitamos palavras, detalhes, e impulsos que não podem ser traduzidos: uma divisão constante. Tanto a tradução quanto sua prima caótica, a Ultra-tradução nos fornecem ferramentas para atravessar ou não atravessar. Se vamos atravessar ou não, precisamos das ferramentas.

  • Reconhecemos como a tradução tem sido usada, é usada e ainda poderá ser usada como ferramenta de conquista, assimilação ou domesticação. Temos o compromisso de criar traduções que são racinadas nas culturas, diálogos, conflitos, batalhas, esforços, hierarquias, fofocas de suas comunidades de origem. Reconhecemos isso como uma tarefa difícil – talvez impossível – e ainda assim temos grandes esperanças. Esperanças impossíveis. Esperanças intraduzíveis. Ultra-tradutoras/es se curvam para perturbar o império da Língua Inglesa.

  • A Ultra-tradução é um processo de trabalho contra as línguas que buscam dominar. No nível mais básico, a mensagem da tradução: existe algo sendo dito em outro lugar que é de importância crucial para nós aqui (nesta linguagem) escutarmos. É um grande esforço escutar esse "algo em outro lugar". A Ultra-tradução não traria algo de outro lugar para a língua dominante (o inglês, por exemplo) de uma maneira suave, sedutora, não problematizada, como para sugerir que agora "nós" entendemos "vocês". A Ultra-tradução cutuca as línguas dominantes para longe da dominância, em direção a um espaço entre o original e a tradução. Em direção ao espaço do ultra.

  • Trabalhar através de linguagens é um dilema, especialmente para aquelas/es de nós que falam e escrevem nas línguas dos impérios. Nossa linguagem perpetua a invisibilidade do outro. Nossa linguagem impõe privilégios. Ainda assim, traduzimos para nossas línguas. Traduzimos para nossas línguas para reescrever a linguagem. A Ultra-tradução como maneira de sair correndo do dilema. A Ultra-tradução como maneira de viver com inquietação e de maneira anárquica dentro do dilema.

  • Se ler trabalhos traduzidos nos fazem pensar que não lemos largo o suficiente, isso é uma coisa boa. Se ler trabalhos traduzidos nos faz querer que soubéssemos mais duas, dez ou mais trinta línguas, isso é uma coisa boa. Melhor que correr do intraduzível, desprezando ou olhando com suspeita, ou lamentando a perda que ela representa, experienciamos a Ultra-tradução como um convite para aumentar a imersão, aumentar a intimidade. Uma brecha de luz escapando de uma porta levemente aberta. Sempre uma luz atravessando, a porta é impossível de ser fechada porque sua fundação mudou imperceptivelmente, a soleira está torta.


  • A Ultra-tradução é um tipo de ativismo ou (des)organização: as traduções com as quais trabalhamos não são preparadas para um consumo confortável. Experienciamos a Ultra-tradução como um catalizador para mudanças de consciência, sintaxe e de nossa capacidade de reimaginar o mundo. A Ultra-tradução é catalítica.

  • Ultratraduções nos permitem penetrar além da superfície, para um estado mais profundo que é em si mesmo feito de várias e várias camadas de superfícies. A Ultra-tradução muda as categorias do conhecido.

  • Vivemos e trabalhamos em uma bagunça de intraduzibilidade. O obstáculo desconfortável onde não sabemos mais o que falar, como falar ou até mesmo o que é falar – mas continuamos falando. O obstáculo-linguagem é o sinal de que existe mais pensamento a ser feito. Não podemos nos libertar da pegada de não-saber, tampouco desejaríamos nos desentrelaçar mesmo se pudéssemos. Pelo contrário, permaneçamos nesse espaço. O espaço instigador da dificuldade e da não compreensão. Ultra-traduza esse espaço. Retraduza desse espaço.

  • A Intraduzibilidade é uma introdução. Uma introdução à tradução. Uma isca. A Ultra-tradução não é não-tradução, nem pós-tradução, nem anti-tradução. Simultaneidade, não progressão.

  • Porque quebramos a fé. Porque a fé já estava quebrada. Porque só existe fé em quebrar a fé (só existe possibilidade no impossível, apenas a traduzibilidade na intraduzibilidade). Porque não existe algo como um sentido literal. Não há original, apenas pontos de partida. Nenhuma conexão limpa e organizada entre significado e significante. Nenhuma rota de um significador para outro que não pegue um atalho pelo decrescimento, pelo chão da floresta, pelo chão da fábrica.

  • A Ultra-tradução resiste em sua própria definição, aninhada no discurso dominante, ainda assim, se recusa em ser contida por este discurso.

  • A Ultra-tradução emerge nos extremos mais finos, mais longes da assíntota: não importa quão próximas/os chegamos, sempre existe um espaço entre os dois – quaisquer dois – e esse espaço é onde vivemos. Onde somos encantadas/os e frustradas/os ao mesmo tempo. Onde trabalhamos. Onde queremos agitar.


Fontes

Andrés Ajens, Convite ao “Coloquio: Interculturalidad y Traducción” (personal correspondence with Erín Moure).

Oana Avasilichioaei and Erin Mouré, diálogo sobre “Translation, Collaboration, and Reading the Multiple,” at In(ter)ventions: Literary Practice at the Edge, The Banff Centre, 9 de Fevereiro de 2011. http://media.sas.upenn.edu/pennsound/authors/Avasilichioaei/2-19-11/Avasilichoaei- Oana_Moure_Erin_01_Translation-Collaboration-Multiple_Interventions_19-02-2011.mp3

“A Conversation with Don Mee Choi,” entrevista com Wendy Chin-Tanner, Lantern Review blog, 5 de Dezembro de 2012. http://www.lanternreview.com/blog/2012/12/05/a-conversation-with- don-mee-choi/

Erín Moure, “Cómo no traducir? HOW, negation, TO TRANSLATE?” Jacket2, 27n de janeiro de 2013. https://jacket2.org/commentary/cómo-no-traducir-how-negation-translate

“Pierre Joris: Seven Minutes on Translation,” interview with M. Lynx Qualey, Arabic Literature (in English), 19 de janeiro de 2012. http://arablit.wordpress.com/for-translators/pierre-joris-seven- minutes-on-translation/

Colofão

O Antena é um projeto colaborativo de justiça linguística e experimentação linguística fundado em 2010 por Jen Hofer e John Pluecker, ambos escritores, artistas, tradutores literários, livreiros e intérpretes ativistas. Consideramos nossa prática estética como parte integrante de nosso trabalho de justiça linguística. O Antena ativa os vínculos entre o trabalho de justiça social e a prática artística, explorando como a visão crítica da linguagem pode ser usada para criar uma linguagem mais justa.

O Manifesto para a Ultra-tradução foi escrito de forma colaborativa pela Antena em um celeiro de 1923 da Sears & Roebuck na propriedade de Edna St. Vincent Millay em Austerlitz, NY, no verão de 2013. Agradecemos a Oana Avasilichioaei e Norma Cole por sua leitura atenta e comentários perspicazes e à Millay Colony for the Arts pelo espaço para articular nossas ideias ultratradicionais. O design da capa da série de panfletos Antena é de Jorge Galván Flores.

Este panfleto é uma publicação da Antena Books / Libros Antena. Ele foi originalmente distribuído como parte da instalação Antena @ Blaffer no Blaffer Museum da Universidade de Houston, com curadoria de Amy Powell e Antena. Também está disponível para download gratuito no site da Antena: http://www.antenaantena.org. Você pode entrar em contato com o Antena pelo e-mail antena@antenaantena.org. Gostaríamos muito de dialogar sobre as ideias deste manifesto.




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